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May 14 Dedaleira venenosaSe o Amor fosse um monumento seria, por certo, uma frágua disforme, cheia de poros de sal, musgos e cal, rugas talhadas em séculos pela água. Seria assim - rocha cortante, imperfeita, que ninguém consegue escalar e segurar o futuro. Seria uma rocha altiva, nua e perdida entre as orquídeas bravas da serra .
Eu iria vigiá-la qual dedaleira venenosa, pronta a matar os incautos domingueiros que a ti se encostassem para a fotografia de mais um passeio banal, ao fim da tarde. Eles repousariam inconscientes do perigo que eu sou quando se aproximam de ti: monumento perpetuamente inacabado onde a verdade perde o nome e o corpo, ao qual, sorrindo, ofereço este copo assassino.
Vem, brindemos os dois com a cicuta da serra, na sombra da frágua perdida, elevada aos céus...
May 09 Sombra
Na feira perfumada das vaidades há flores florindo desmedidas, misturam-se nas calçadas com as águas intranquilas das praças onde esta sombra avança muda. Ela não é o meu corpo distorcido, cortado pela luz do meio-dia, ela é um resto incauto de ti, que entre mim e a vida quotidiana teima em interpor-se anonimamente.
Invento-te nas palavras que hoje descarno, distante das brumas e das esquinas pintadas de noite, onde nos costumamos corporizar. Hoje apareces aqui neste chão de pó, marcado pelos rastos dos animais, na aurora pálida de silêncio intacto, na harmonia fingida das palavras que procuro para te surpreender.
Queria-te hoje presente, de cara destapada, além da minha sombra, além do nosso tempo, para além deste poema que rasguei mil vezes, pois ele é apenas um tronco morto, náufrago, um resto daquilo que te queria gritar a nu, mas que as palavras teimam sempre em abafar. April 17 LíriosLírios
Entre um olhar e um sorriso a idade inocente dos lírios, adocica o ar morno da sala e apesar das janelas metálicas despontam braços alados elevando-me além dos telhados, além das convenções diárias dos papéis definidos e pardos.
Na ignorância deste mistério esfuma-se um perfil de anjo, fingindo-se chama diabólica enigma de pássaro tímido, que nas margens dos outros se torna presente aqui: entre os lírios da jarra e as palavras luminosas que os copos mudos bebem, entre um golo e um olhar perdido na noite solitária, roída pela fome de afecto. April 08 JogoO rasto de uma linha perdidamente obtusa rasga a escuridão pálida dos olhares castrados, umas asas diabolicamente soltas e sombrias pairam na escuridão nervosa de uns dedos que procuram a entrega explosiva da carne madura.
Não eram estas palavras de zinco que te queria atirar, mas todas aquelas de significado insuspeito e bravio despojos da loucura e das rugas anunciadas no fumo, restos de tudo o que julguei ser, além quotidiano.
Finjo o que nunca fui, só para volteares na luz inebriado, aprisionando quem ao toque não sou. Invento-me só para te poder raiar na distancia da noite, numa conversa branca que esconde o lado oculto das pedras negras renegadas ao sol..
As palavras sorriem em diagonal, mascaradas mas sei que consegues ler o que te está vedado, embora finjas não ver, não sentir, não querer...
Este é afinal um jogo corrosivo, disputado e negado a dois.
December 15 ChuvaChuva Caí pelo vidro, sem pressa... ele tem o frio, mas eu também o tenho - aqui... Não me interessam as novas vozes do vento, nem o soluçar da lua perdida procurando-me em todos os caminhos. Escorri fria e líquida pelo vidro da janela e rolei na bola verde de um menino, esquecida numa rua. Parei aqui, sem música, só, com muito frio.... e rio-me molhando os pés de quem passa. Escondo-me nas ervas do passeio só para a lua sofrer.... Procurando-me toda a noite, sem me ver, e eu muito quieta ensopando todos os pés na rua triste... November 18 ClepsidraClepsidra
Que pena a clepsidra só medir a água do tempo e não a força aquosa do mar, pois só ele sabe as vezes que fomos gaivotas com asas-maresia, e pés no chão, enterrados à flor dos outros. Que pena ela não conseguir medir a luz da água brilhando na fusão total dos olhos em clarão, sem a obrigação de dar e receber, num sopro de paz sideral, felizes por estarmos de novo frente a frente, com a água limpa do nosso olhar.
Que pena a clepsidra não medir a vertigem de saliva nos sorrisos de soslaio, quando apesar da fronteira do azul lunar do mar, escrevemos poesia à distância, com o instinto vital da cria faminta e rasgamos palavras, em busca da melhor, da mais forte, da perfeita... Embora saibamos que o mais importante ficará sempre por dizer, pelo menos até ao nosso próximo poema...
Que pena a clepsidra só medir a água do nosso tempo. October 14 Post -scriptumjPost-scriptum
Esquece todas as palavras que um dia te disse, eram somente desenhos infantis e coloridos eram pó das estrelas, fragmentos de brisa com cheiro a ondas e brilho de lua cheia, eram palavras talhadas a fogo, lembrando tudo o que permanece numa gruta visceral, vindo à luz do dia em páginas de cal branca preenchidas com tinta preta e dedos ansiosos.
As palavras que agora de mim ouvirás, perderão todo o poder encantatório, toda a transgressão, serão meras palavras, pouco para ti decerto... mas serão as únicas que saberei dizer ao sol... Assim, se numa noite de Verão o meu olhar se acender e as palavras ressuscitarem, poucos o verão... e tu desviarás o olhar fingindo não ver o que não quero dizer.
P.S- Este poema é um post-scriptum para perceberes tudo, sem perguntares nada. July 09 Voos de calVoos de cal
Numa distância aquém mar de trago doce durante as noites em que a frustração ácida quase enlouqueceu os sentidos dormentes, as mãos ganharam uma metamorfose alada e levaram-nos marginais à casa de nós mesmos.
No nervoso dos dedos catámos palavras ansiosamente secretas de um amor calcário, por entre a via láctea nocturna e marítima regressámos ao tempo luminoso e disperso onde nos encontrámos e nos perdemos órfãos siameses no arame farpado dos dias ociosos, famintos daquilo que a carne nunca nos deu e renegando às garras dos sentidos a tal fusão.
Desses voos clandestinos ficou a certeza nua de que atingimos a cal viva e pura, aquela que corrói a carne podre, morta, acessória do corpo e liberta a alma de todas as máscaras fingidas, deixando-nos assim em ferida-aresta, sangrando, abertos um ao outro, com a certeza clara de que estes são os voos secretos, rasando a perfeição. July 01 Apologia do risoApologia do riso
O riso confunde sempre a normalidade dos outros, por isso, quando desconheces a atroz resposta, quando parece não valer a pena explicar o óbvio, quando tu próprio não sabes o que dizer a frio, ri... é a melhor arma acutilante, principalmente para toda a ignorância, para todos os medos cravados nos obstáculos ácidos e perpétuos que não podes vencer a murro, ao grito, à força.
Para todos os que te rodeiam de arame farpado, para aqueles que te querem quotidiano e mudo, para mim que quero o limiar da tua verdade... ri... só assim nos calarás a todos, com a força do riso inusitado, clarão bombástico de luz e dor que se crava na nossa carne flácida, anunciando que todos somos indistintamente estátuas de cal com almas abandonadas ao ócio dos dias iguais.
Todos estamos num vale que já foi paraíso e que hoje é uma cidade fantasmagórica com risos falsos de alegria.
June 20 O silêncio das palavras como espelho e etcO silêncio das palavras como espelho e etc
Dizes que os olhos reflectem a alma verdadeira, mas não acredito, por vezes sabes que se tornam espelhos côncavos, ilusórios, retratos das aparências. Também não acredites nas minhas palavras ácidas, ou mesmo nas doces sussurradas a quente, pele na pele, pois elas e os meu olhos mentem-te constantemente...
Só o meu silêncio poderia dizer-te tudo limpidamente ser o espelho da minha verdade lunar e lilás errante, mas insistes em preencher com som os silêncios nus falando sem parar de tudo o que não me interessa.
Pronto, fala-me de banalidades, do dia a dia, do cansaço, da náusea, do vazio, das trivialidades, e de tudo, etc... Fala sem parar... Eu sei que o fazes por medo, tentando abafar o meu silêncio e tudo o que sabes que ele cala. June 17 Música submersaMúsica submersa (Para NPS) Esta noite ouve bem o som da chuva miudinha caindo sem parar entre as ervas do laranjal, batendo nas pedras expulsas da terra arada empilhadas nas bermas dos caminhos estreitos onde tu e eu vagueamos perdidos no tempo, vagabundos de um reino de nevoeiro acre.
Esta é a nossa música submersa na água dos nossos olhos, lembrança do mar inicial bravio, revolto de marés galácticas geladas. É uma música velada que não revelamos, mas que hoje me soa a um adeus inconfessado. Sei que passaremos pelos caminhos escuros, pelos mesmos becos da cidade fantasma, esboçaremos sorrisos e até palavras banais, mas esta música ficará hoje submersa no mar, inacessível e perdida nos dias solares de amanhã.
A chuva cai no laranjal, fertilizando a terra quente e adocicando o ar, enquanto nas pedras se esconde a verdade desta música abafada, que não quero morta. June 02 Cleptomania das mãosCleptomania das mãos
Na nebulosa esquina da distância, escravos de uma idade menor, os silêncios velados, os olhares de noite escura cheiram-nos a uma tristeza muda, desgraçadamente soturna, sem o abraço de qualquer salvação possível.
Quando esbarramos na encruzilhada do olhar apetece-me roubar-te um sorriso de luz, ou ir buscar às escondidas um raio de sol, para te ensinar que para além da escuridão brilham galáxias de fogo e campos de paz lunar. E que nas florestas de lobos e gnomos-bruxos, sem farsas de gesso, podes ser quem quiseres até mesmo quem julgas ser, na verdade de ti.
Na inércia dos papéis diários e convencionais, as mãos nunca controlam a sua cleptomania e mesmo à-beira-dos-outros, roubo palavras, segredos brancos, soslaios, só para te levar, ao trilho da floresta interior, onde podes correr com os lobos da noite por entre as sombras da lua, afastado das barreiras de aço farpado, especialmente daquelas com que cortas os pulsos quotidianos.
Toma, roubei para ti mais um olhar em forma de estrela, tira-o das minhas mãos criminosas e foge com ele, já que eu tenho de ficar aqui, nocturnamente sem ti... May 27 Anatomia dos ecosAnatomia dos ecos
Se enterrares bem as mãos profundas na gruta de silêncio opaco, arquitectada com os ossos brancos das costelas nuas para o santuário do coração e dos pulmões, apertarás lá dentro em ruínas, não a alma, mas uma anatomia vermelha, intrincada de veias, sangue, tecidos pulsando...
Ai encontrarás aprisionados os ecos mudos com que os dias de morfina se abafam nus, esperando os abismos negros do universo por onde o corpo mortal se espraia em luz, perto dos sentidos embriagados ao vento.
Nessa gruta ressoa também um eco de cobre suspenso entre os meus olhos e os teus lábios numa anatomia incendiária, gritante de desejo. Mas as almas resistem orgulhosas à carne viva, ao som imortal da fúria dos amantes castrados e em todas as grutas só se ouve a memória do mar... May 23 Poema de vento inconstantePoema de vento inconstante
Não falo deste vento esterilizado de sal, falo daquele rumoroso, que esculpe no frio circular, as brancas fórneas calcárias e traz aquém-mar o cheiro a mito acre das velhas plantas serranas e selvagens.
Não falo sequer do vento quente de leste, sopro do deserto árido queimando as veias, feiticeiro das paixões viscerais do luar. Falo daquele vento sonoro, claro e intenso, capaz de traduzir mil palavras enigmáticas em diálogos húmidos de silêncio fértil... É o vento metáfora da errância dos trilhos, onde as rochas duras do olhar ficam nuas.
Falo daquele vento animal livre e bravio que te revela neste poema de saudade, onde o vento inconstante escreve sem cessar versos marcados com cheiro a rosmaninho, enquanto nos olivais, a melodia dos melros eleva no ar, o sopro alado deste reino-doce. May 18 Ofício de Amar- poema no femininoOfício de Amar- Poema no feminino
Esta é a imagem da estátua-gente, que no deserto dos dias me ilumina os poços escondidos dos nómadas, que trazem com a água das estrelas um aperto de desfiladeiro na garganta e uma brisa roçando quente na cintura.
No chão de fráguas há uma cama lua, perfumada na noite com giestas bravas, ecoam na voz palavras de lã, macias, no silêncio-luz do vento de cristal brilham-me quotidianas pedras molhadas, e a certeza de estar no corpo certo.
Quando o deserto negro se faz alma e me invade duro as veias de areia, então parto com os nómadas rumo à miragem do mar azul, no teu olhar de oásis, ou numa noite grávida de lua e tojos.
Este é o difícil ofício de amar pequenas coisas no dia a dia, esquecidas por estarem sempre à mão... May 17 O cão de Pavlov (em mim)O cão de Pavlov em mim
O teu sorriso é um luminoso isco manipulador, com cheiro de saliva proibida e murta fresca. Hipnotizada cada dia nessa voragem de dinamite, finjo para ti a mansidão calma do luar primaveril. Só nas noites com encruzilhadas de demência percebo que testas em mim a teoria de Pavlov, fico condicionada pelo estímulo do teu olhar estrelar e só penso numa recompensa perigosamente doce...
De cima do meu orgulho, combato-te enraivecida, fujo para a segurança dos muros nus caiados, repetindo maquinalmente a mesma pergunta: «Afinal e na verdade que posso esperar de ti? » - Nada, eu sei... a não ser sentir-me o cão de Pavlov salivando à espera de uma recompensa frugal, por ter cedido ao teu sorriso de Anjo-mau.
Bem sabes que isso jamais te darei o gosto de ser... assim, à falta de uma arma acutilante nas mãos dou-te a pólvora seca deste olhar, pronto a matar-te , enquanto trauteio “...You`ve a fast gun...” dos Pavlov`s Dog... May 14 Gotas de Tempo puroGotas de tempo puro
Escorrem lambendo a vida gotas frias de tempo puro, tocam nas mãos de vento sem se conseguir apará-las, parecem trovoadas de força relâmpagos luz de fogo-fértil rasgando o chão, intocáveis.
O tempo flui, escapando-se entre os dedos em garra, vazios... Mas ao mesmo tempo que magoa, o tempo desata os nós cegos que ontem embrulhavam a linha da vida em voltas invencíveis.
O tempo antecipa o fim de tudo, nas gotas puras escorrendo entre o vazio. Mensagem numa garrafa de rumMensagem numa garrafa de rum
Na taberna do porto, em círculos juntam-se os velhos marinheiros, cachimbo na boca e copo de rum, entre uma conversa meia calada e um olhar nostálgico, procuram no horizonte as sombras de um navio que nunca há-de vir aquele porto.
Em segredo, continuam também à espera que venha nas ondas revoltas da idade uma garrafa de rum com uma mensagem de uma das mulheres que fingiram amar, num porto distante antes de partirem.
Mas a garrafa esperada nunca chega, afinal não foram os únicos a fingir amar... Mas que lhes importa? Enquanto houver garrafas de rum cheias para espiar o mar... May 12 Os sete pecados (os meus)III- O Ódio
Lá fora e cá dentro deste barco-luz um turbilhão de ventos ciclónicos, faz rodopiar na minha face o rosto de Ulisses.
Procuro, também eu, afastar os ciclopes que me correm cavalgando dentro das veias, e matar um a um os cânticos das sereias, que me fazem desistir desta luta fraternal.
Chamo o ódio que preciso reunir Para vencer um a um, mortalmente, os gigantes que me atroam e acalmam, pondo-me grilhões e lemes na alma.
Se te odiasse assim, com esta intensidade, ficaria livre das amarras de Prometeu, Seria tão fácil, tão indolor, quase transparente...
Poderia finalmente partir de mim Rumo a Ítaca, pátria antiga, idealizada, Deitando-me na teia mágica e renovada Das outras mãos, desde sempre prometidas. |
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