Aziul D`Aire's profilepoesia Aziul D`AirePhotosBlogListsMore Tools Help

Blog


    November 07

    Blogue

    Um convite...uma visita ao blogue http://palavrasdecal.blogspot.com/
    May 14

    Dedaleira venenosa


    Se o Amor fosse um monumento

    seria, por certo, uma frágua disforme,

    cheia de poros de sal, musgos e cal,

    rugas talhadas em séculos pela água.

    Seria assim - rocha cortante, imperfeita,

    que ninguém consegue escalar e segurar o futuro.

    Seria uma rocha altiva, nua e perdida

    entre as orquídeas bravas da serra .


    Eu iria vigiá-la qual dedaleira venenosa,

    pronta a matar os incautos domingueiros

    que a ti se encostassem para a fotografia

    de mais um passeio banal, ao fim da tarde.

    Eles repousariam inconscientes do perigo

    que eu sou quando se aproximam de ti:

    monumento perpetuamente inacabado

    onde a verdade perde o nome e o corpo,

    ao qual, sorrindo, ofereço este copo assassino.


    Vem, brindemos os dois com a cicuta da serra,

    na sombra da frágua perdida, elevada aos céus...



    May 09

    Sombra


    Na feira perfumada das vaidades

    há flores florindo desmedidas,

    misturam-se nas calçadas com

    as águas intranquilas das praças

    onde esta sombra avança muda.

    Ela não é o meu corpo distorcido,

    cortado pela luz do meio-dia,

    ela é um resto incauto de ti,

    que entre mim e a vida quotidiana

    teima em interpor-se anonimamente.


    Invento-te nas palavras que hoje

    descarno, distante das brumas e

    das esquinas pintadas de noite,

    onde nos costumamos corporizar.

    Hoje apareces aqui neste chão de pó,

    marcado pelos rastos dos animais,

    na aurora pálida de silêncio intacto,

    na harmonia fingida das palavras

    que procuro para te surpreender.


    Queria-te hoje presente, de cara destapada,

    além da minha sombra, além do nosso tempo,

    para além deste poema que rasguei mil vezes,

    pois ele é apenas um tronco morto, náufrago,

    um resto daquilo que te queria gritar a nu,

    mas que as palavras teimam sempre em abafar.


    April 17

    Lírios

     

    Lírios


    Entre um olhar e um sorriso

    a idade inocente dos lírios,

    adocica o ar morno da sala

    e apesar das janelas metálicas

    despontam braços alados

    elevando-me além dos telhados,

    além das convenções diárias

    dos papéis definidos e pardos.


    Na ignorância deste mistério

    esfuma-se um perfil de anjo,

    fingindo-se chama diabólica

    enigma de pássaro tímido,

    que nas margens dos outros

    se torna presente aqui:

    entre os lírios da jarra

    e as palavras luminosas

    que os copos mudos bebem,

    entre um golo e um olhar

    perdido na noite solitária,

    roída pela fome de afecto.

     
    April 08

    Jogo

    O rasto de uma linha perdidamente obtusa

    rasga a escuridão pálida dos olhares castrados,

    umas asas diabolicamente soltas e sombrias

    pairam na escuridão nervosa de uns dedos que

    procuram a entrega explosiva da carne madura.

                           

    Não eram estas palavras de zinco que te queria atirar,

    mas todas aquelas de significado insuspeito e bravio

    despojos da loucura e das rugas anunciadas no fumo,

    restos de tudo o que julguei ser, além quotidiano.

     

    Finjo o que nunca fui, só para volteares na luz

    inebriado, aprisionando quem ao toque não sou.

    Invento-me só para te poder raiar na distancia

    da noite, numa conversa branca que esconde o

    lado oculto das pedras negras renegadas ao sol..

     

    As palavras sorriem em diagonal, mascaradas

    mas sei que consegues ler o que te está vedado,

    embora finjas não ver, não sentir, não querer...

     

    Este é afinal um jogo corrosivo, disputado e negado a dois.

     

    December 15

    Chuva

    Chuva

    Caí pelo vidro, sem pressa...
    ele tem o frio, mas eu também o tenho - aqui...
    Não me interessam as novas vozes do vento,
    nem o soluçar da lua perdida
    procurando-me em todos os caminhos.

    Escorri fria e líquida pelo vidro da janela
    e rolei na bola verde de um menino, esquecida numa rua.
    Parei aqui, sem música, só, com muito frio....
    e rio-me molhando os pés de quem passa.

    Escondo-me nas ervas do passeio
    só para a lua sofrer....
    Procurando-me toda a noite, sem me ver,
    e eu muito quieta
    ensopando todos os pés na rua triste...
    November 18

    Clepsidra

     

    Clepsidra


    Que pena a clepsidra só medir a água do tempo

    e não a força aquosa do mar, pois só ele sabe

    as vezes que fomos gaivotas com asas-maresia,

    e pés no chão, enterrados à flor dos outros.

    Que pena ela não conseguir medir a luz da água

    brilhando na fusão total dos olhos em clarão,

    sem a obrigação de dar e receber, num sopro

    de paz sideral, felizes por estarmos de novo

    frente a frente, com a água limpa do nosso olhar.


    Que pena a clepsidra não medir a vertigem de saliva

    nos sorrisos de soslaio, quando apesar da fronteira

    do azul lunar do mar, escrevemos poesia à distância,

    com o instinto vital da cria faminta e rasgamos palavras,

    em busca da melhor, da mais forte, da perfeita...

    Embora saibamos que o mais importante ficará sempre

    por dizer, pelo menos até ao nosso próximo poema...


    Que pena a clepsidra só medir a água do nosso tempo.

    October 14

    Post -scriptumj

     

    Post-scriptum


    Esquece todas as palavras que um dia te disse,

    eram somente desenhos infantis e coloridos

    eram pó das estrelas, fragmentos de brisa

    com cheiro a ondas e brilho de lua cheia,

    eram palavras talhadas a fogo, lembrando

    tudo o que permanece numa gruta visceral,

    vindo à luz do dia em páginas de cal branca

    preenchidas com tinta preta e dedos ansiosos.


    As palavras que agora de mim ouvirás, perderão

    todo o poder encantatório, toda a transgressão,

    serão meras palavras, pouco para ti decerto...

    mas serão as únicas que saberei dizer ao sol...

    Assim, se numa noite de Verão o meu olhar

    se acender e as palavras ressuscitarem,

    poucos o verão... e tu desviarás o olhar

    fingindo não ver o que não quero dizer.


    P.S- Este poema é um post-scriptum

    para perceberes tudo, sem perguntares nada.

    July 09

    Voos de cal

    Voos de cal


    Numa distância aquém mar de trago doce

    durante as noites em que a frustração ácida

    quase enlouqueceu os sentidos dormentes,

    as mãos ganharam uma metamorfose alada

    e levaram-nos marginais à casa de nós mesmos.


    No nervoso dos dedos catámos palavras

    ansiosamente secretas de um amor calcário,

    por entre a via láctea nocturna e marítima

    regressámos ao tempo luminoso e disperso

    onde nos encontrámos e nos perdemos órfãos

    siameses no arame farpado dos dias ociosos,

    famintos daquilo que a carne nunca nos deu e

    renegando às garras dos sentidos a tal fusão.


    Desses voos clandestinos ficou a certeza nua

    de que atingimos a cal viva e pura, aquela que

    corrói a carne podre, morta, acessória do corpo

    e liberta a alma de todas as máscaras fingidas,

    deixando-nos assim em ferida-aresta, sangrando,

    abertos um ao outro, com a certeza clara de que

    estes são os voos secretos, rasando a perfeição.

    July 01

    Apologia do riso

     

    Apologia do riso


    O riso confunde sempre a normalidade dos outros,

    por isso, quando desconheces a atroz resposta,

    quando parece não valer a pena explicar o óbvio,

    quando tu próprio não sabes o que dizer a frio,

    ri... é a melhor arma acutilante, principalmente

    para toda a ignorância, para todos os medos

    cravados nos obstáculos ácidos e perpétuos

    que não podes vencer a murro, ao grito, à força.


    Para todos os que te rodeiam de arame farpado,

    para aqueles que te querem quotidiano e mudo,

    para mim que quero o limiar da tua verdade...

    ri... só assim nos calarás a todos, com a força

    do riso inusitado, clarão bombástico de luz e dor

    que se crava na nossa carne flácida, anunciando

    que todos somos indistintamente estátuas de cal

    com almas abandonadas ao ócio dos dias iguais.


    Todos estamos num vale que já foi paraíso e que hoje é

    uma cidade fantasmagórica com risos falsos de alegria.



    June 20

    O silêncio das palavras como espelho e etc

     

    O silêncio das palavras como espelho e etc


    Dizes que os olhos reflectem a alma verdadeira,

    mas não acredito, por vezes sabes que se tornam

    espelhos côncavos, ilusórios, retratos das aparências.

    Também não acredites nas minhas palavras ácidas,

    ou mesmo nas doces sussurradas a quente, pele na pele,

    pois elas e os meu olhos mentem-te constantemente...


    Só o meu silêncio poderia dizer-te tudo limpidamente

    ser o espelho da minha verdade lunar e lilás errante,

    mas insistes em preencher com som os silêncios nus

    falando sem parar de tudo o que não me interessa.


    Pronto, fala-me de banalidades, do dia a dia, do cansaço,

    da náusea, do vazio, das trivialidades, e de tudo, etc...

    Fala sem parar... Eu sei que o fazes por medo, tentando

    abafar o meu silêncio e tudo o que sabes que ele cala.

    June 17

    Música submersa

     

    Música submersa  (Para NPS)

    Esta noite ouve bem o som da chuva miudinha

    caindo sem parar entre as ervas do laranjal,

    batendo nas pedras expulsas da terra arada

    empilhadas nas bermas dos caminhos estreitos

    onde tu e eu vagueamos perdidos no tempo,

    vagabundos de um reino de nevoeiro acre.


    Esta é a nossa música submersa na água

    dos nossos olhos, lembrança do mar inicial

    bravio, revolto de marés galácticas geladas.

    É uma música velada que não revelamos,

    mas que hoje me soa a um adeus inconfessado.

    Sei que passaremos pelos caminhos escuros,

    pelos mesmos becos da cidade fantasma,

    esboçaremos sorrisos e até palavras banais,

    mas esta música ficará hoje submersa no mar,

    inacessível e perdida nos dias solares de amanhã.


    A chuva cai no laranjal, fertilizando a terra quente

    e adocicando o ar, enquanto nas pedras se esconde

    a verdade desta música abafada, que não quero morta.

    June 02

    Cleptomania das mãos

     

    Cleptomania das mãos


    Na nebulosa esquina da distância, escravos

    de uma idade menor, os silêncios velados,

    os olhares de noite escura cheiram-nos

    a uma tristeza muda, desgraçadamente soturna,

    sem o abraço de qualquer salvação possível.


    Quando esbarramos na encruzilhada do olhar

    apetece-me roubar-te um sorriso de luz,

    ou ir buscar às escondidas um raio de sol,

    para te ensinar que para além da escuridão

    brilham galáxias de fogo e campos de paz lunar.

    E que nas florestas de lobos e gnomos-bruxos,

    sem farsas de gesso, podes ser quem quiseres

    até mesmo quem julgas ser, na verdade de ti.


    Na inércia dos papéis diários e convencionais,

    as mãos nunca controlam a sua cleptomania

    e mesmo à-beira-dos-outros, roubo palavras,

    segredos brancos, soslaios, só para te levar,

    ao trilho da floresta interior, onde podes correr

    com os lobos da noite por entre as sombras da lua,

    afastado das barreiras de aço farpado, especialmente

    daquelas com que cortas os pulsos quotidianos.


    Toma, roubei para ti mais um olhar em forma de estrela,

    tira-o das minhas mãos criminosas e foge com ele,

    já que eu tenho de ficar aqui, nocturnamente sem ti...


    May 27

    Anatomia dos ecos

     

    Anatomia dos ecos


    Se enterrares bem as mãos profundas

    na gruta de silêncio opaco, arquitectada

    com os ossos brancos das costelas nuas

    para o santuário do coração e dos pulmões,

    apertarás lá dentro em ruínas, não a alma,

    mas uma anatomia vermelha, intrincada

    de veias, sangue, tecidos pulsando...


    Ai encontrarás aprisionados os ecos mudos

    com que os dias de morfina se abafam nus,

    esperando os abismos negros do universo

    por onde o corpo mortal se espraia em luz,

    perto dos sentidos embriagados ao vento.


    Nessa gruta ressoa também um eco de cobre

    suspenso entre os meus olhos e os teus lábios

    numa anatomia incendiária, gritante de desejo.

    Mas as almas resistem orgulhosas à carne viva,

    ao som imortal da fúria dos amantes castrados

    e em todas as grutas só se ouve a memória do mar...

    May 23

    Poema de vento inconstante

     

    Poema de vento inconstante


    Não falo deste vento esterilizado de sal,

    falo daquele rumoroso, que esculpe no frio

    circular, as brancas fórneas calcárias

    e traz aquém-mar o cheiro a mito acre

    das velhas plantas serranas e selvagens.


    Não falo sequer do vento quente de leste,

    sopro do deserto árido queimando as veias,

    feiticeiro das paixões viscerais do luar.

    Falo daquele vento sonoro, claro e intenso,

    capaz de traduzir mil palavras enigmáticas

    em diálogos húmidos de silêncio fértil...

    É o vento metáfora da errância dos trilhos,

    onde as rochas duras do olhar ficam nuas.



    Falo daquele vento animal livre e bravio

    que te revela neste poema de saudade,

    onde o vento inconstante escreve sem cessar

    versos marcados com cheiro a rosmaninho,

    enquanto nos olivais, a melodia dos melros

    eleva no ar, o sopro alado deste reino-doce.

    May 18

    Ofício de Amar- poema no feminino

     

    Ofício de Amar- Poema no feminino


    Esta é a imagem da estátua-gente,

    que no deserto dos dias me ilumina

    os poços escondidos dos nómadas,

    que trazem com a água das estrelas

    um aperto de desfiladeiro na garganta

    e uma brisa roçando quente na cintura.


    No chão de fráguas há uma cama lua,

    perfumada na noite com giestas bravas,

    ecoam na voz palavras de lã, macias,

    no silêncio-luz do vento de cristal

    brilham-me quotidianas pedras molhadas,

    e a certeza de estar no corpo certo.


    Quando o deserto negro se faz alma

    e me invade duro as veias de areia, então

    parto com os nómadas rumo à miragem

    do mar azul, no teu olhar de oásis,

    ou numa noite grávida de lua e tojos.


    Este é o difícil ofício de amar

    pequenas coisas no dia a dia,

    esquecidas por estarem sempre à mão...

    May 17

    O cão de Pavlov (em mim)

     

    O cão de Pavlov em mim


    O teu sorriso é um luminoso isco manipulador,

    com cheiro de saliva proibida e murta fresca.

    Hipnotizada cada dia nessa voragem de dinamite,

    finjo para ti a mansidão calma do luar primaveril.

    Só nas noites com encruzilhadas de demência

    percebo que testas em mim a teoria de Pavlov,

    fico condicionada pelo estímulo do teu olhar estrelar

    e só penso numa recompensa perigosamente doce...


    De cima do meu orgulho, combato-te enraivecida,

    fujo para a segurança dos muros nus caiados,

    repetindo maquinalmente a mesma pergunta:

    «Afinal e na verdade que posso esperar de ti? »

    - Nada, eu sei... a não ser sentir-me o cão de Pavlov

    salivando à espera de uma recompensa frugal,

    por ter cedido ao teu sorriso de Anjo-mau.


    Bem sabes que isso jamais te darei o gosto de ser...

    assim, à falta de uma arma acutilante nas mãos

    dou-te a pólvora seca deste olhar, pronto a matar-te ,

    enquanto trauteio “...You`ve a fast gun...” dos Pavlov`s Dog...

    May 14

    Gotas de Tempo puro

     

    Gotas de tempo puro


    Escorrem lambendo a vida

    gotas frias de tempo puro,

    tocam nas mãos de vento

    sem se conseguir apará-las,

    parecem trovoadas de força

    relâmpagos luz de fogo-fértil

    rasgando o chão, intocáveis.


    O tempo flui, escapando-se entre

    os dedos em garra, vazios...

    Mas ao mesmo tempo que magoa,

    o tempo desata os nós cegos

    que ontem embrulhavam a linha

    da vida em voltas invencíveis.


    O tempo antecipa o fim de tudo,

    nas gotas puras escorrendo entre o vazio.

    Mensagem numa garrafa de rum

     

    Mensagem numa garrafa de rum


    Na taberna do porto, em círculos

    juntam-se os velhos marinheiros,

    cachimbo na boca e copo de rum,

    entre uma conversa meia calada

    e um olhar nostálgico, procuram

    no horizonte as sombras de um navio

    que nunca há-de vir aquele porto.


    Em segredo, continuam também à espera

    que venha nas ondas revoltas da idade

    uma garrafa de rum com uma mensagem

    de uma das mulheres que fingiram amar,

    num porto distante antes de partirem.


    Mas a garrafa esperada nunca chega,

    afinal não foram os únicos a fingir amar...

    Mas que lhes importa? Enquanto houver

    garrafas de rum cheias para espiar o mar...

    May 12

    Os sete pecados (os meus)

     

    III- O Ódio


    Lá fora e cá dentro deste barco-luz

    um turbilhão de ventos ciclónicos,

    faz rodopiar na minha face o rosto de Ulisses.


    Procuro, também eu, afastar os ciclopes

    que me correm cavalgando dentro das veias,

    e matar um a um os cânticos das sereias,

    que me fazem desistir desta luta fraternal.


    Chamo o ódio que preciso reunir

    Para vencer um a um, mortalmente,

    os gigantes que me atroam e acalmam,

    pondo-me grilhões e lemes na alma.


    Se te odiasse assim, com esta intensidade,

    ficaria livre das amarras de Prometeu,

    Seria tão fácil, tão indolor, quase transparente...


    Poderia finalmente partir de mim

    Rumo a Ítaca, pátria antiga, idealizada,

    Deitando-me na teia mágica e renovada

    Das outras mãos, desde sempre prometidas.