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5月12日 PóPó
Num caos de som nada fermentou, só o vidro estilhaçado a raiz do medo putrefacta a luz fria apagada, num quarto vazio de olhos cancelados.
Do pó não guardei semente, só fruto imaturo de um girassol esquecido em seara de risos, numa noite inusitada.
Nas asas e no corpo o pássaro cadavérico regressa ao pó: - é centelha mágica, - sémen de estrela. Porém, as nossas mãos são nada, só pó, um vento de nós. 5月11日 SoproSopro
Palavras de copos vazios, estéreis, velhas, despidas...
Fecundo o ar montanhoso, sangrando das tuas folhas antigas o perfume a hortelã e a salva. À-beira-de-ti, nestas ruínas de pele, toco o calcário do teu corpo e ao ouvido sopro-te, num vento quente de leste: - Estou aqui, não podes fugir de mim. Espírito ZenEspírito zen
Entardecer vermelho na água que escorre das nascentes de ti, na sombra dos bambus nas pedras redondas, é sorvida lentamente pelas aves de mim.
Sento-me no silêncio do chão: abdico do supérfluo, respiro o que tenho feliz pela imensidão do que me cai das mãos.
Alma lavada pela noite que chega roçando devagar entre a lua calada e os mares de prata, entre o nada e o tudo. 5月9日 Memórias do LabirintoMemórias do Labirinto
Continuo aos círculos perdida na sensação que este não é o local certo para o voo, nem é este o corpo da alma com asas.
Perdida na memória de Creta branca ou do ventre materno, enrolada em mim, procuro nas rochas lunares a gruta certa, aquela que dá para o Oceano-verdade que me imundaria as veias do seu azul turquesa, profundo, tocando a calma.
O labirinto em mim esconde minotauros, poeiras e areias de tudo o que fingi viver e de tudo o que ficou nas brumas por ser, fundidos num tempo cíclico de cera e penas, síntese do passado, do presente e do futuro.
Tempo em precipício caindo por mim abaixo, depois de tocar um sol que os outros não sentem. Metáforas de sangueMetáforas de Sangue
Papoilas rubras cortando mãos de linho, cerejas maduras espraiando prazer à boca escarlate na voragem da saliva.
Óleo vermelho, viscoso, pulsante nos hibiscos corados de tédio. Guernica de novo em Sarajevo, ou num mártir pintado de deus que se imola na ara das bestas.
Os meus olhos raiados de sangue, são rajadas de balas no muro de um pelotão de fuzilamento, quando te olham sorrindo cuspindo uma paz assassina e dizem: - que fiques feliz com ela... 5月7日 clepsidraClepsidra
Que pena a clepsidra só medir a água do tempo e não a força aquosa do mar, pois só ele sabe as vezes que fomos gaivotas com asas-maresia, e pés no chão, enterrados à flor dos outros. Que pena ela não conseguir medir a luz da água brilhando na fusão total dos olhos em clarão, sem a obrigação de dar e receber, num sopro de paz sideral, felizes por estarmos de novo frente a frente, com a água limpa do nosso olhar.
Que pena a clepsidra não medir a vertigem de saliva nos sorrisos de soslaio, quando apesar da fronteira do azul lunar do mar, escrevemos poesia à distância, com o instinto vital da cria faminta e rasgamos palavras, em busca da melhor, da mais forte, da perfeita... Embora saibamos que o mais importante ficará sempre por dizer, pelo menos até ao nosso próximo poema...
Que pena a clepsidra só medir a água do nosso tempo. 5月4日 Filho das águasFilho das águas
A chuva humilhante escorre, lembrando-nos a felicidade, de corrermos à solta, fugindo por entre os pingos de cristal.
No chão molhado e espelhado pintamos aguarelas de cor e luz, nas sombras cinzentas da noite perdidas nas insólitas calçadas.
Aqui aprendemos a humildade dos pequenos gestos naturais: quando para não escorregares me dás a tua pequena mão fria e eu compreendo, filho das águas, qual é realmente o meu lugar.
Nesse momento a metafísica torna-se um jogo inocente de crianças. 5月2日 Voltar a mimVoltar a mim
Voltar a mim Como se voltasse a casa, no final de um dia, que de tão longo, já esqueci a manhã. É assim que transborda em náusea todo o cansaço, todo o desânimo, nascido das certezas que tudo me é gelo, até as mãos enlaçadas.
É por isso que dói voltar a mim, despir a roupa, as máscaras, parar de fingir nos espelhos. Adormeço cada terror náufrago. guiada numa luz negra, pelas palavras inseminadas, descalça, com o meu mestre, rumo às fontes das dunas.
A noite é escura, aberta aos ruídos do silêncio e sem um toque de mão desencantas-me as asas e o canto de gaivota.
Vem um novo dia e corro, luto, esqueço-me de mim, para à noite tirar a máscara e ficar nua das outras, enroscada na areia, ao pé de ti. 5月1日 sete pecados mortais (os meus)
I- A Vaidade
No lago negro Narciso te enfeitiça, desejas a sua luz escura-profunda, a sua cor feita de aves e magnólias. Impotente face a essa miragem escondes as fraquezas em tiaras de lua, procurando brilhos que não são os teus.
Tudo para que te iludas, ignorando a imagem da verdade. Mudas a tua procura inebriante, ao sabor dos ventos fracos, dos risos falsos e nefastos....
A tua beleza compromete-se, nessas armaduras de nada que te afastam da verdadeira luz, daquela que o teu espelho não reflecte...
Andas em busca do divino nas águas, mas não o procuras no interior da terra, dentro das tuas sombras e entranhas. Lá onde o corpo de Narciso se transformou em flor brilhante, cor de ocre e açafrão, a qual, as ninfas resgataram do lodo podre. Laranja metadeLaranja metade
No gume inseguro do olhar a morte renasce, vaga imagem de outrora onde o cheiro maduro das laranjas embriaga: Bem perto do desejo Bem perto do fim...
Fogo de laranjas doce, quente, ácido, sumo escorrido da mão para a boca fertilizada com abelhas e terra.
Na noite escura a fogueira invisível do olhar espera o cheiro maduro, dessa laranja metade Correndo na seiva da manhã. 4月19日 Apresentação da noiteApresentação da noite
Apresento a noite sem estrelas, vazia de palavras húmidas ciciadas a olhares de brisas nocturnas. Esta é uma noite escura de fome onde róis o silêncio dos dedos, cravados no fumo que se exala do cigarro com que enganas mudo a tua ânsia nervosa do mundo.
Esta é a minha noite, mas sem mim. Hoje voo enrolada nos jornais velhos, rodando no lixo molhado da rua suja, batendo em esquinas amputadas de ti. Sou náufraga dos golos difíceis deste absinto doloroso que chega ao fim, no copo ardente da vida. 4月14日 BeijoBeijo
Ondula no grito das asas e no sopro do vento nómada um beijo cego, mudo, nervoso, há muito prometido e omitido. Foi vagarosamente esculpido a frio, nas ondas nuas do mar e na lava cinza que ali petrificou.
Ele envenena boca a boca, exterminando todas as certezas num abismo galáctico de carne. Espreita numa nesga de medo entre o olhar e a noite, confiante que acabará com tudo o que és, deixando em aberto tudo o que não serás.
É o beijo final, epílogo da última amante, é o beijo fatal, o sopro vertiginoso da morte. 4月12日 Poema Ingénuo para EugénioPoema ingénuo para Eugénio
Num fim de tarde laranja-estival na paz basáltica da escada antiga, mastigo pão de centeio pingando mel num vestido-lua de alfazema madura. Como um mestre, brilha na erva tisnada, um gato amarelo, ou um poeta, que lambe raios de sol desenhados pelas cerejeiras.
Então repito o teu jogo dos dias ácidos para abafar o mofo das palavras vedadas, abro ao acaso o livro Interdito de Eugénio : “Eras o fruto/ nos meus dedos a tremer. Podíamos cantar/ ou voar,/podíamos morrer”...
As mãos em concha recebem águas de íris no silêncio ondulante da noite nas alcachofras, as cerejas rubras tremem na aragem jovem, enquanto os tordos viajantes cantam, voando baixo. E nós ingénuos só podemos morrer com Eugénio... Os outros versos serão lume nas sombras da lua, numa noite de chuva miudinha refrescando o cerejal. 4月10日 Metamorfoses de TiMetamorfoses de Ti
No sal, nos óleos e no alecrim emerges no cheiro deste banho, molhando-me a alma aos pingos, chapinhando em mim secretamente, numa água oculta, azul-placenta.
És corpo em metamorfose, mudando-me o som dos dias iguais. Tornaste corpóreo no vinho, na pimenta e nas papoilas de sangue que nos acenam, escondendo searas inseminadas de beijos.
Sozinha dou-te a mão e não te toco, só te olho sorrindo... Pois sei que amanhã estarás noutro corpo, transformado em novo brilho, ou canto, nesta mudança contínua em que nos amamos.
Levanto o copo, brindo à vida e bebo-te! Hoje és champanhe rosa em cristal, metamorfose de estrela aquosa, cujo nome me ensinaste, no mapa da noite.
Sozinha, Levanto o copo, e não sendo acidente, derramo-te em mim, eternamente. Ocasião especialOcasião especial
Tu Monstro de olhar Pedra de sentido Copo de champanhe. Morro na dança Das tuas mãos, Ângulos nus Que me tornam tua, nesta entrega especial, em águas revoltas Prontas a explodir Pronta para ser tua.
Aventura na tua mão Olhar que me leva além Onde tu, onde ele Se confundem num horizonte. Avançamos, perdidos Recuamos... Onde eras tu- sou eu Onde era eu- ficaste tu, Numa barreira fria Que nos deixa dois Em vez de um...
A morte dança Nesta esquina de som e música Mas eu resisto Não lhe dou a mão Acredito que ao virar da esquina A morte recuará E nós enganaremos as mãos.
Esta entrega Ficará para outra ocasião especial... 3月30日 Frustração intactaFrustração intacta
Mãos de calcário, estátuas de sal procurando fontes na montanha, para te dar água pura.
Bosques de olhar em estrelas pintados, no arco-íris da tua boca. Palavras que são de vento, turbilhões à solta tocando duramente no teu corpo estátua de pedra fria.
Imensidão do ar perdida na chuva que caí horizontalmente, na frustração intacta de nada poder ser de nada poder ter de nada saber daquilo que pensas, quando ouves o canto agudo, dos melros nos laranjais. Filhos de DédaloFilhos de Dédalo
Dédalo peço-te o que nunca ousei: - constrói-me umas asas silvestres com penas de tordos e estorninhos, enlaçadas com ervas mediterrânicas, iguais as que construíste para Ícaro. (O teu filho preferido, mas o mais irresponsável e ingrato de todos.)
És meu pai e não me amas, como a ele... Sou a tua filha-cardo da serra árida, fruto do sémen aquoso de velho criador com a sua estátua, num sopro de mulher, abandonada por ti, em pedra de calçada.
Sou refém do rei Minos e de uma vontade que me suga a alma em círculos orvalhados. Incapaz de roubar o fio condutor de Ariadne rumo ao perfil molhado do belo Teseu, o único capaz de matar este minotauro, que me galga nas veias de cal e me prende no bolor, negando-me o voo num céu de luz livre deste labirinto de Creta, dentro de mim.
Pai, não te posso perdoar, nunca! Amaste só um dos teus filhos, e logo aquele que queria tocar o sol, enquanto eu, livre de mim, sem labirintos, queria amar Teseu... Na sombra das avesNa sombra das aves
Vem, meu amor, sentar-te junto ao rio florindo as mãos de flores silvestres embalados pela música vertiginosa do rio, no fim desta tarde explosiva de carmim.
Esquece todas as angustiosas esquinas, que nos ferem os pulsos quotidianos e saboreia na planície o aqui e o agora, sem ontem, sem amanhã, sem morte... Deixemo-nos ficar parados, simplesmente debaixo das árvores doces em flor, contando uma a uma as sombras das aves que planam livres no azul por cima de nós, sem pensarmos em nada, nem sequer porque te chamo desde sempre, meu amor...
O rio corre com o perfume das flores da tarde e ouve-me dizer baixinho na erva macia: - Vem ser feliz aqui, na sombra das aves. Improviso sobre a preguiçaImproviso sobre a preguiça
Um gato espreguiça-se no sol de Junho, lambendo o pêlo molhado da noite, na janela da casa antiga avisto-o, deitado no jardim de rosas abertas perdido nas cores, nos cheiros doces e nas abelhas barulhentas aos círculos.
Nas mãos tenho um poema para escrever, mas não o faço... não tenho vontade hoje. Fico aqui a olhar as pequenas coisas simples e a imaginar como seria partilhar esta preguiça contigo, espreguiçando-nos lá fora no roseiral.
O ócio é tal que o pensamento fica branco, nem nisso me apetece pensar, só ficar aqui... Viro as costas à janela, deito-me no sofá e durmo feliz, sem pensar em nada... |
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