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日志


5月12日

Os sete pecados (os meus)

 

III- O Ódio


Lá fora e cá dentro deste barco-luz

um turbilhão de ventos ciclónicos,

faz rodopiar na minha face o rosto de Ulisses.


Procuro, também eu, afastar os ciclopes

que me correm cavalgando dentro das veias,

e matar um a um os cânticos das sereias,

que me fazem desistir desta luta fraternal.


Chamo o ódio que preciso reunir

Para vencer um a um, mortalmente,

os gigantes que me atroam e acalmam,

pondo-me grilhões e lemes na alma.


Se te odiasse assim, com esta intensidade,

ficaria livre das amarras de Prometeu,

Seria tão fácil, tão indolor, quase transparente...


Poderia finalmente partir de mim

Rumo a Ítaca, pátria antiga, idealizada,

Deitando-me na teia mágica e renovada

Das outras mãos, desde sempre prometidas.

 


Num caos de som

nada fermentou,

só o vidro estilhaçado

a raiz do medo putrefacta

a luz fria apagada,

num quarto vazio

de olhos cancelados.


Do pó não guardei semente,

só fruto imaturo

de um girassol esquecido

em seara de risos,

numa noite inusitada.


Nas asas e no corpo

o pássaro cadavérico

regressa ao pó:

- é centelha mágica,

- sémen de estrela.

Porém, as nossas mãos

são nada,

só pó,

um vento de nós.

5月11日

Sopro

 

Sopro


Palavras de copos vazios,

estéreis, velhas, despidas...


Fecundo o ar montanhoso,

sangrando das tuas folhas antigas

o perfume a hortelã e a salva.

À-beira-de-ti,

nestas ruínas de pele,

toco o calcário do teu corpo

e ao ouvido sopro-te,

num vento quente de leste:

- Estou aqui, não podes fugir de mim.

Espírito Zen

 

Espírito zen


Entardecer vermelho

na água que escorre

das nascentes de ti,

na sombra dos bambus

nas pedras redondas,

é sorvida lentamente

pelas aves de mim.


Sento-me

no silêncio do chão:

abdico do supérfluo,

respiro o que tenho

feliz pela imensidão

do que me cai das mãos.


Alma lavada

pela noite que chega

roçando devagar

entre a lua calada

e os mares de prata,

entre o nada e o tudo.

5月9日

Memórias do Labirinto

 

Memórias do Labirinto


Continuo aos círculos perdida na sensação

que este não é o local certo para o voo,

nem é este o corpo da alma com asas.


Perdida na memória de Creta branca

ou do ventre materno, enrolada em mim,

procuro nas rochas lunares a gruta certa,

aquela que dá para o Oceano-verdade

que me imundaria as veias do seu azul

turquesa, profundo, tocando a calma.


O labirinto em mim esconde minotauros,

poeiras e areias de tudo o que fingi viver

e de tudo o que ficou nas brumas por ser,

fundidos num tempo cíclico de cera e penas,

síntese do passado, do presente e do futuro.

Tempo em precipício caindo por mim abaixo,

depois de tocar um sol que os outros não sentem.

Metáforas de sangue

 

Metáforas de Sangue


Papoilas rubras cortando mãos de linho,

cerejas maduras espraiando prazer

à boca escarlate na voragem da saliva.


Óleo vermelho, viscoso, pulsante

nos hibiscos corados de tédio.

Guernica de novo em Sarajevo,

ou num mártir pintado de deus

que se imola na ara das bestas.


Os meus olhos raiados de sangue,

são rajadas de balas no muro

de um pelotão de fuzilamento,

quando te olham sorrindo

cuspindo uma paz assassina

e dizem: - que fiques feliz com ela...

5月7日

clepsidra

 

Clepsidra


Que pena a clepsidra só medir a água do tempo

e não a força aquosa do mar, pois só ele sabe

as vezes que fomos gaivotas com asas-maresia,

e pés no chão, enterrados à flor dos outros.

Que pena ela não conseguir medir a luz da água

brilhando na fusão total dos olhos em clarão,

sem a obrigação de dar e receber, num sopro

de paz sideral, felizes por estarmos de novo

frente a frente, com a água limpa do nosso olhar.


Que pena a clepsidra não medir a vertigem de saliva

nos sorrisos de soslaio, quando apesar da fronteira

do azul lunar do mar, escrevemos poesia à distância,

com o instinto vital da cria faminta e rasgamos palavras,

em busca da melhor, da mais forte, da perfeita...

Embora saibamos que o mais importante ficará sempre

por dizer, pelo menos até ao nosso próximo poema...


Que pena a clepsidra só medir a água do nosso tempo.

5月4日

Filho das águas

 

Filho das águas


A chuva humilhante escorre,

lembrando-nos a felicidade,

de corrermos à solta, fugindo

por entre os pingos de cristal.


No chão molhado e espelhado

pintamos aguarelas de cor e luz,

nas sombras cinzentas da noite

perdidas nas insólitas calçadas.


Aqui aprendemos a humildade

dos pequenos gestos naturais:

quando para não escorregares

me dás a tua pequena mão fria

e eu compreendo, filho das águas,

qual é realmente o meu lugar.


Nesse momento a metafísica

torna-se um jogo inocente de crianças.

5月2日

Voltar a mim

 

Voltar a mim


Voltar a mim

Como se voltasse a casa,

no final de um dia,

que de tão longo,

já esqueci a manhã.

É assim que transborda em náusea

todo o cansaço, todo o desânimo,

nascido das certezas

que tudo me é gelo,

até as mãos enlaçadas.


É por isso que dói voltar a mim,

despir a roupa, as máscaras,

parar de fingir nos espelhos.

Adormeço cada terror náufrago.

guiada numa luz negra,

pelas palavras inseminadas,

descalça, com o meu mestre,

rumo às fontes das dunas.


A noite é escura,

aberta aos ruídos do silêncio

e sem um toque de mão

desencantas-me as asas

e o canto de gaivota.


Vem um novo dia

e corro, luto, esqueço-me de mim,

para à noite tirar a máscara

e ficar nua das outras,

enroscada na areia, ao pé de ti.

5月1日

sete pecados mortais (os meus)

 



I- A Vaidade


No lago negro Narciso te enfeitiça,

desejas a sua luz escura-profunda,

a sua cor feita de aves e magnólias.

Impotente face a essa miragem

escondes as fraquezas em tiaras de lua,

procurando brilhos que não são os teus.


Tudo para que te iludas,

ignorando a imagem da verdade.

Mudas a tua procura inebriante,

ao sabor dos ventos fracos,

dos risos falsos e nefastos....


A tua beleza compromete-se,

nessas armaduras de nada

que te afastam da verdadeira luz,

daquela que o teu espelho não reflecte...


Andas em busca do divino nas águas,

mas não o procuras no interior da terra,

dentro das tuas sombras e entranhas.

Lá onde o corpo de Narciso se transformou

em flor brilhante, cor de ocre e açafrão,

a qual, as ninfas resgataram do lodo podre.

Laranja metade

 

Laranja metade


No gume inseguro do olhar

a morte renasce,

vaga imagem de outrora

onde o cheiro maduro

das laranjas embriaga:

Bem perto do desejo

Bem perto do fim...


Fogo de laranjas

doce, quente, ácido,

sumo escorrido da mão para a boca

fertilizada com abelhas e terra.


Na noite escura

a fogueira invisível do olhar

espera o cheiro maduro,

dessa laranja metade

Correndo na seiva da manhã.

4月19日

Apresentação da noite

 

Apresentação da noite


Apresento a noite sem estrelas,

vazia de palavras húmidas ciciadas

a olhares de brisas nocturnas.

Esta é uma noite escura de fome

onde róis o silêncio dos dedos,

cravados no fumo que se exala

do cigarro com que enganas mudo

a tua ânsia nervosa do mundo.


Esta é a minha noite, mas sem mim.

Hoje voo enrolada nos jornais velhos,

rodando no lixo molhado da rua suja,

batendo em esquinas amputadas de ti.

Sou náufraga dos golos difíceis

deste absinto doloroso que chega

ao fim, no copo ardente da vida.

4月14日

Beijo

 

Beijo


Ondula no grito das asas e

no sopro do vento nómada

um beijo cego, mudo, nervoso,

há muito prometido e omitido.

Foi vagarosamente esculpido

a frio, nas ondas nuas do mar

e na lava cinza que ali petrificou.


Ele envenena boca a boca,

exterminando todas as certezas

num abismo galáctico de carne.

Espreita numa nesga de medo

entre o olhar e a noite, confiante

que acabará com tudo o que és,

deixando em aberto tudo o que não serás.


É o beijo final, epílogo da última amante,

é o beijo fatal, o sopro vertiginoso da morte.

4月12日

Poema Ingénuo para Eugénio

 

Poema ingénuo para Eugénio



Num fim de tarde laranja-estival

na paz basáltica da escada antiga,

mastigo pão de centeio pingando mel

num vestido-lua de alfazema madura.

Como um mestre, brilha na erva tisnada,

um gato amarelo, ou um poeta, que lambe

raios de sol desenhados pelas cerejeiras.


Então repito o teu jogo dos dias ácidos

para abafar o mofo das palavras vedadas,

abro ao acaso o livro Interdito de Eugénio :

Eras o fruto/ nos meus dedos a tremer.

Podíamos cantar/ ou voar,/podíamos morrer”...


As mãos em concha recebem águas de íris

no silêncio ondulante da noite nas alcachofras,

as cerejas rubras tremem na aragem jovem,

enquanto os tordos viajantes cantam, voando baixo.

E nós ingénuos só podemos morrer com Eugénio...

Os outros versos serão lume nas sombras da lua,

numa noite de chuva miudinha refrescando o cerejal.

4月10日

Metamorfoses de Ti

 

Metamorfoses de Ti


No sal, nos óleos e no alecrim

emerges no cheiro deste banho,

molhando-me a alma aos pingos,

chapinhando em mim secretamente,

numa água oculta, azul-placenta.


És corpo em metamorfose,

mudando-me o som dos dias iguais.

Tornaste corpóreo no vinho, na pimenta

e nas papoilas de sangue que nos acenam,

escondendo searas inseminadas de beijos.


Sozinha dou-te a mão e não te toco,

só te olho sorrindo... Pois sei

que amanhã estarás noutro corpo,

transformado em novo brilho, ou canto,

nesta mudança contínua em que nos amamos.


Levanto o copo,

brindo à vida e bebo-te!

Hoje és champanhe rosa em cristal,

metamorfose de estrela aquosa,

cujo nome me ensinaste, no mapa da noite.


Sozinha,

Levanto o copo, e não sendo acidente,

derramo-te em mim, eternamente.

Ocasião especial

 

Ocasião especial


Tu

Monstro de olhar

Pedra de sentido

Copo de champanhe.

Morro na dança

Das tuas mãos,

Ângulos nus

Que me tornam tua,

nesta entrega especial,

em águas revoltas

Prontas a explodir

Pronta para ser tua.


Aventura na tua mão

Olhar que me leva além

Onde tu, onde ele

Se confundem num horizonte.

Avançamos, perdidos

Recuamos...

Onde eras tu- sou eu

Onde era eu- ficaste tu,

Numa barreira fria

Que nos deixa dois

Em vez de um...


A morte dança

Nesta esquina de som e música

Mas eu resisto

Não lhe dou a mão

Acredito que ao virar da esquina

A morte recuará

E nós enganaremos as mãos.


Esta entrega

Ficará para outra ocasião especial...

3月30日

Frustração intacta

 

Frustração intacta


 

Mãos de calcário,

estátuas de sal

procurando

fontes na montanha,

para te dar água pura.


Bosques de olhar

em estrelas pintados,

no arco-íris da tua boca.

Palavras que são de vento,

turbilhões

à solta

tocando

duramente

no teu corpo estátua

de pedra fria.


Imensidão do ar

perdida na chuva

que caí horizontalmente,

na frustração intacta

de nada poder ser

de nada poder ter

de nada saber

daquilo que pensas,

quando ouves o canto agudo,

dos melros nos laranjais.

Filhos de Dédalo

 

Filhos de Dédalo


Dédalo peço-te o que nunca ousei:

- constrói-me umas asas silvestres

com penas de tordos e estorninhos,

enlaçadas com ervas mediterrânicas,

iguais as que construíste para Ícaro.

(O teu filho preferido, mas o mais

irresponsável e ingrato de todos.)


És meu pai e não me amas, como a ele...

Sou a tua filha-cardo da serra árida,

fruto do sémen aquoso de velho criador

com a sua estátua, num sopro de mulher,

abandonada por ti, em pedra de calçada.


Sou refém do rei Minos e de uma vontade

que me suga a alma em círculos orvalhados.

Incapaz de roubar o fio condutor de Ariadne

rumo ao perfil molhado do belo Teseu,

o único capaz de matar este minotauro,

que me galga nas veias de cal e me prende

no bolor, negando-me o voo num céu de luz

livre deste labirinto de Creta, dentro de mim.


Pai, não te posso perdoar, nunca!

Amaste só um dos teus filhos, e logo

aquele que queria tocar o sol, enquanto eu,

livre de mim, sem labirintos, queria amar Teseu...

Na sombra das aves

 

Na sombra das aves


Vem, meu amor, sentar-te junto ao rio

florindo as mãos de flores silvestres

embalados pela música vertiginosa do rio,

no fim desta tarde explosiva de carmim.


Esquece todas as angustiosas esquinas,

que nos ferem os pulsos quotidianos e

saboreia na planície o aqui e o agora,

sem ontem, sem amanhã, sem morte...

Deixemo-nos ficar parados, simplesmente

debaixo das árvores doces em flor,

contando uma a uma as sombras das aves

que planam livres no azul por cima de nós,

sem pensarmos em nada, nem sequer

porque te chamo desde sempre, meu amor...


O rio corre com o perfume das flores da tarde

e ouve-me dizer baixinho na erva macia:

- Vem ser feliz aqui, na sombra das aves.

Improviso sobre a preguiça

 

Improviso sobre a preguiça


Um gato espreguiça-se no sol de Junho,

lambendo o pêlo molhado da noite,

na janela da casa antiga avisto-o,

deitado no jardim de rosas abertas

perdido nas cores, nos cheiros doces

e nas abelhas barulhentas aos círculos.


Nas mãos tenho um poema para escrever,

mas não o faço... não tenho vontade hoje.

Fico aqui a olhar as pequenas coisas simples

e a imaginar como seria partilhar esta preguiça

contigo, espreguiçando-nos lá fora no roseiral.


O ócio é tal que o pensamento fica branco,

nem nisso me apetece pensar, só ficar aqui...

Viro as costas à janela, deito-me no sofá

e durmo feliz, sem pensar em nada...