Aziul D`Aire's profilepoesia Aziul D`AirePhotosBlogListsMore Tools Help

Blog


    14 May

    Dedaleira venenosa


    Se o Amor fosse um monumento

    seria, por certo, uma frágua disforme,

    cheia de poros de sal, musgos e cal,

    rugas talhadas em séculos pela água.

    Seria assim - rocha cortante, imperfeita,

    que ninguém consegue escalar e segurar o futuro.

    Seria uma rocha altiva, nua e perdida

    entre as orquídeas bravas da serra .


    Eu iria vigiá-la qual dedaleira venenosa,

    pronta a matar os incautos domingueiros

    que a ti se encostassem para a fotografia

    de mais um passeio banal, ao fim da tarde.

    Eles repousariam inconscientes do perigo

    que eu sou quando se aproximam de ti:

    monumento perpetuamente inacabado

    onde a verdade perde o nome e o corpo,

    ao qual, sorrindo, ofereço este copo assassino.


    Vem, brindemos os dois com a cicuta da serra,

    na sombra da frágua perdida, elevada aos céus...



    09 May

    Sombra


    Na feira perfumada das vaidades

    há flores florindo desmedidas,

    misturam-se nas calçadas com

    as águas intranquilas das praças

    onde esta sombra avança muda.

    Ela não é o meu corpo distorcido,

    cortado pela luz do meio-dia,

    ela é um resto incauto de ti,

    que entre mim e a vida quotidiana

    teima em interpor-se anonimamente.


    Invento-te nas palavras que hoje

    descarno, distante das brumas e

    das esquinas pintadas de noite,

    onde nos costumamos corporizar.

    Hoje apareces aqui neste chão de pó,

    marcado pelos rastos dos animais,

    na aurora pálida de silêncio intacto,

    na harmonia fingida das palavras

    que procuro para te surpreender.


    Queria-te hoje presente, de cara destapada,

    além da minha sombra, além do nosso tempo,

    para além deste poema que rasguei mil vezes,

    pois ele é apenas um tronco morto, náufrago,

    um resto daquilo que te queria gritar a nu,

    mas que as palavras teimam sempre em abafar.