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14 May Dedaleira venenosaSe o Amor fosse um monumento seria, por certo, uma frágua disforme, cheia de poros de sal, musgos e cal, rugas talhadas em séculos pela água. Seria assim - rocha cortante, imperfeita, que ninguém consegue escalar e segurar o futuro. Seria uma rocha altiva, nua e perdida entre as orquídeas bravas da serra .
Eu iria vigiá-la qual dedaleira venenosa, pronta a matar os incautos domingueiros que a ti se encostassem para a fotografia de mais um passeio banal, ao fim da tarde. Eles repousariam inconscientes do perigo que eu sou quando se aproximam de ti: monumento perpetuamente inacabado onde a verdade perde o nome e o corpo, ao qual, sorrindo, ofereço este copo assassino.
Vem, brindemos os dois com a cicuta da serra, na sombra da frágua perdida, elevada aos céus...
09 May Sombra
Na feira perfumada das vaidades há flores florindo desmedidas, misturam-se nas calçadas com as águas intranquilas das praças onde esta sombra avança muda. Ela não é o meu corpo distorcido, cortado pela luz do meio-dia, ela é um resto incauto de ti, que entre mim e a vida quotidiana teima em interpor-se anonimamente.
Invento-te nas palavras que hoje descarno, distante das brumas e das esquinas pintadas de noite, onde nos costumamos corporizar. Hoje apareces aqui neste chão de pó, marcado pelos rastos dos animais, na aurora pálida de silêncio intacto, na harmonia fingida das palavras que procuro para te surpreender.
Queria-te hoje presente, de cara destapada, além da minha sombra, além do nosso tempo, para além deste poema que rasguei mil vezes, pois ele é apenas um tronco morto, náufrago, um resto daquilo que te queria gritar a nu, mas que as palavras teimam sempre em abafar. |
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