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    19 April

    Apresentação da noite

     

    Apresentação da noite


    Apresento a noite sem estrelas,

    vazia de palavras húmidas ciciadas

    a olhares de brisas nocturnas.

    Esta é uma noite escura de fome

    onde róis o silêncio dos dedos,

    cravados no fumo que se exala

    do cigarro com que enganas mudo

    a tua ânsia nervosa do mundo.


    Esta é a minha noite, mas sem mim.

    Hoje voo enrolada nos jornais velhos,

    rodando no lixo molhado da rua suja,

    batendo em esquinas amputadas de ti.

    Sou náufraga dos golos difíceis

    deste absinto doloroso que chega

    ao fim, no copo ardente da vida.

    14 April

    Beijo

     

    Beijo


    Ondula no grito das asas e

    no sopro do vento nómada

    um beijo cego, mudo, nervoso,

    há muito prometido e omitido.

    Foi vagarosamente esculpido

    a frio, nas ondas nuas do mar

    e na lava cinza que ali petrificou.


    Ele envenena boca a boca,

    exterminando todas as certezas

    num abismo galáctico de carne.

    Espreita numa nesga de medo

    entre o olhar e a noite, confiante

    que acabará com tudo o que és,

    deixando em aberto tudo o que não serás.


    É o beijo final, epílogo da última amante,

    é o beijo fatal, o sopro vertiginoso da morte.

    12 April

    Poema Ingénuo para Eugénio

     

    Poema ingénuo para Eugénio



    Num fim de tarde laranja-estival

    na paz basáltica da escada antiga,

    mastigo pão de centeio pingando mel

    num vestido-lua de alfazema madura.

    Como um mestre, brilha na erva tisnada,

    um gato amarelo, ou um poeta, que lambe

    raios de sol desenhados pelas cerejeiras.


    Então repito o teu jogo dos dias ácidos

    para abafar o mofo das palavras vedadas,

    abro ao acaso o livro Interdito de Eugénio :

    Eras o fruto/ nos meus dedos a tremer.

    Podíamos cantar/ ou voar,/podíamos morrer”...


    As mãos em concha recebem águas de íris

    no silêncio ondulante da noite nas alcachofras,

    as cerejas rubras tremem na aragem jovem,

    enquanto os tordos viajantes cantam, voando baixo.

    E nós ingénuos só podemos morrer com Eugénio...

    Os outros versos serão lume nas sombras da lua,

    numa noite de chuva miudinha refrescando o cerejal.

    10 April

    Metamorfoses de Ti

     

    Metamorfoses de Ti


    No sal, nos óleos e no alecrim

    emerges no cheiro deste banho,

    molhando-me a alma aos pingos,

    chapinhando em mim secretamente,

    numa água oculta, azul-placenta.


    És corpo em metamorfose,

    mudando-me o som dos dias iguais.

    Tornaste corpóreo no vinho, na pimenta

    e nas papoilas de sangue que nos acenam,

    escondendo searas inseminadas de beijos.


    Sozinha dou-te a mão e não te toco,

    só te olho sorrindo... Pois sei

    que amanhã estarás noutro corpo,

    transformado em novo brilho, ou canto,

    nesta mudança contínua em que nos amamos.


    Levanto o copo,

    brindo à vida e bebo-te!

    Hoje és champanhe rosa em cristal,

    metamorfose de estrela aquosa,

    cujo nome me ensinaste, no mapa da noite.


    Sozinha,

    Levanto o copo, e não sendo acidente,

    derramo-te em mim, eternamente.

    Ocasião especial

     

    Ocasião especial


    Tu

    Monstro de olhar

    Pedra de sentido

    Copo de champanhe.

    Morro na dança

    Das tuas mãos,

    Ângulos nus

    Que me tornam tua,

    nesta entrega especial,

    em águas revoltas

    Prontas a explodir

    Pronta para ser tua.


    Aventura na tua mão

    Olhar que me leva além

    Onde tu, onde ele

    Se confundem num horizonte.

    Avançamos, perdidos

    Recuamos...

    Onde eras tu- sou eu

    Onde era eu- ficaste tu,

    Numa barreira fria

    Que nos deixa dois

    Em vez de um...


    A morte dança

    Nesta esquina de som e música

    Mas eu resisto

    Não lhe dou a mão

    Acredito que ao virar da esquina

    A morte recuará

    E nós enganaremos as mãos.


    Esta entrega

    Ficará para outra ocasião especial...